Envelheceu bem | Overload

Nos anos 90 convencionou-se usar o rótulo doom/gothic metal para bandas como Anathema, Paradise Lost, My Dying Bride, The Gathering, Theatre of Tragedy, Tristania, Tiamat e Moonspell, mesmo que poucas delas tivessem algo de gótico (com exceção das duas últimas). O tal do doom/gothic englobava tudo no metal que era melancólico, sombrio ou que usava teclados e vocais femininos – não era lá um gênero muito coeso.

A estética naturalmente se aproximava do cafona. Quando se errava a mão poderia sair algo constrangedor de tão brega, uma sofrência de gosto pra lá de duvidoso. O segundo escalão, então, era repleto de canastrões. Dada esta tendência, é surpreendente como a maioria das bandas da elite do gênero, cada uma à sua maneira, envelheceu tão bem. Os álbuns clássicos resistem ao teste do tempo e as trajetórias dos grupos, caminhando por diversos estilos, são de um bom gosto pouco provável.

O Paradise Lost, com 30 anos de vida, está em um dos melhores momentos da carreira. A fase atual é a mais doom e traz a versão mais pesada, suja e arrastada dos ingleses. O caminho até aqui foi curioso: do começo death/doom do debut “Lost Paradise”, a banda foi ficando menos pesada disco a disco, apostando nos vocais limpos, com o ápice de sucesso no clássico “Draconian Times”. Depois veio a “fase Depeche Mode”, que durou até o “Symbol of Life”, de 2002. Na década seguinte houve um retorno ao som metálico, que resultou no doom atual descrito no começo do parágrafo.

Anathema no Overload Music Fest 2016, em SP – Foto: Alessandra Tolc

O início do Anathema é similar ao do Paradise Lost: doom metal que foi abrindo mão do peso. Porém, o caso da banda dos irmãos Cavanagh foi mais extremo e já no fim dos anos 90 não havia qualquer resquício de heavy metal em sua música. Apesar de não ser a intenção do grupo (eles detestam todas as bandas de rock progressivo que não se chamam Pink Floyd), o Anathema conquistou um público completamente novo no mundo do prog metal/rock com seus álbuns a partir de “We’re Here Because We’re Here” (2010). Mesmo com reprovação de parte (considerável?) dos fãs da era doom, a discografia do Anathema é cheia de pérolas em todas fases.

O The Gathering é outro que começou no death/doom e poucos anos depois não tinha mais nada de heavy metal em seu som. A mudança aqui foi mais radical e rápida do que com as bandas inglesas da Peaceville: death/doom mesmo apenas o debut “Always”. Depois do esquecível “Almost a Dance”, a banda recrutou Anneke Van Giersbergen e lançou um dos melhores discos da década, “Mandylion”. Seu sucessor, “Nighttime Birds”, teoricamente ainda é um álbum de metal, mas as guitarras pesadas pouco aparecem após a faixa de abertura “On Most Surfaces”. “How To Measure a Planet?”, talvez o melhor da carreira do The Gathering, saiu em 1998 e marcou o início da fase experimental – para desespero da Century Media, gravadora da banda na época, já que este disco duplo não era o que os fãs de “Mandylion” queriam ouvir (na época, ao menos). Hoje é considerado um clássico, mas não foi bem recebido quando lançado. Anneke gravou mais três bons álbuns com o grupo (destaque para “Souvenirs”, de 2003) até sair em 2007. Eles ainda lançaram trabalhos musicalmente relevantes desde a saída da cantora, porém sem o mesmo sucesso.

A história se repetiu com outros nomes do período. Alguns tiveram discografias homogêneas, caso do My Dying Bride, que só deu uma pequena experimentada em “34.788%… Complete” (1998). Outros, como o Moonspell, se aventuraram pelo eletrônico e pelo gótico, até voltar a um som mais metal.

Esta foi uma geração rara, que não teve medo de ousar e que envelheceu bem. Dá gosto de ver tantas bandas ainda lançando discos relevantes e atuais após 30 anos de carreira.

Criamos uma playlist no Spotify, de forma cronológica, retratando a evolução dos grupos desta geração. Escuta aí: