Há 20 anos, o fim de uma era no Monsters of Rock

Houve um tempo em que shows internacionais não eram comuns no Brasil e a vinda de um artista inédito era um verdadeiro evento. Existiam poucos festivais, uma quantidade razoável de shows mainstream nas maiores cidades e esporádicas iniciativas underground. Um cenário, portanto, muito diferente do atual, em que São Paulo tem uma agenda comparável a qualquer metrópole do mundo. Apresentações simultâneas na cidade, algo comum hoje em dia, causavam polêmica – como quando Helloween e Overkill tocaram no mesmo dia nos finados Via Funchal e Olympia, respectivamente, em 2001. Nos (memoráveis?) anos 90, o maior encontro de heavy metal no país era o Philips Monsters of Rock, festival patrocinado pela empresa holandesa de eletrônicos e que usava a mesma marca do evento inglês criado na década anterior. Chamado carinhosamente de Monsters, era uma mescla de medalhões com bandas nacionais em ascensão e artistas gringos que dificilmente tocariam no Brasil. Foi assim que, nas três primeiras edições, de 1994 a 1996, os brasileiros – o festival atraía caravanas de tudo quanto é lugar – viram Kiss, Black Sabbath, Ozzy Osbourne, Iron Maiden, Motörhead, Paradise Lost, Helloween, King Diamond, Mercyful Fate, Angra, Viper e Raimundos, entre outros. Mesmo com apresentações irregulares e bandas em momentos menos inspirados de suas carreiras – vide Black Sabbath com Tony Martin em 94 e Iron Maiden com Blaze Bayley em 96 -, foram shows históricos, para o bem ou para o mal. Os apupos ao Skid Row, vítima do radicalismo brasileiro de então e de uma infeliz escalação entre Motörhead e Iron Maiden, se encaixam na segunda categoria. Naquela segunda metade da década de 90,...

Overload Music Fest: erros e acertos

Já são quase dois anos sem post aqui no blog, um projeto que nunca decolou de verdade. Vamos tentar manter alguma regularidade a partir de agora, mas sem promessas. O fim (ou pausa) do Overload Music Fest nos pareceu um assunto digno para a retomada das atividades por aqui. É o evento que gostaríamos que fosse o carro chefe do nosso calendário anual, mas que também nunca decolou. A bem-sucedida edição de 2016 nos encheu de energia, mas 2017 nos trouxe de volta à realidade. Sem vira-latismo, iremos discutir os erros e acertos desta breve história do OMF e por que é difícil realizar um evento do tipo no Brasil. A primeira edição do festival teve God is an Astronaut, Alcest, Fates Warning, Swallow The Sun e Labirinto. Foi uma bela salada que não funcionou tão bem assim. A ideia de 2014 era trazer bandas de vertentes diferentes, mas que tivessem ao menos um pouco de intersecção musical. Tendo bandas de diversos estilos, atrairíamos um público variado, fãs das vertentes que nos propusemos a trabalhar dentro de um universo relativamente restrito da música torta: post rock, progressivo (sempre evitando o lado mais punheteiro do estilo), doom, post metal, etc. Na prática não funcionou. O Fates Warning ficou completamente isolado do resto do festival. No papel achávamos que o seu prog metal pouco indulgente, moderno e até bem atmosférico, como nos tempos de “A Pleasent Shade of Gray”, poderia funcionar junto com o resto do lineup. Porém, para os fãs das outras bandas, os vocais agudos de Ray Alder e a estética mais próxima do prog metal tradicional destoavam demais...

Existe uma indústria de heavy metal no Brasil?

Via Marquês, 21 de abril de 2012. Steven Wilson pergunta ao público, de forma desastrada, por que havia tão pouca gente em seu show naquela noite. A questão, injustamente interpretada como arrogante, era pertinente. Por que o show em São Paulo foi, de longe, o mais vazio em toda a turnê sul-americana? Importante lembrar: a tour passou até por Caracas, que não é exatamente a capital mundial do rock. Não era arrogância, era uma curiosidade legítima. Vejam bem, não é um artista fracassado que não entende por que as pessoas não vão aos seus shows. A pergunta era especificamente para aquela noite. Como explicar tamanha disparidade? Como a gigantesca São Paulo leva menos de 20% do público presente em uma apresentação em Santiago, Cidade do México, Nova Iorque ou Londres? A resposta é simples e complexa ao mesmo tempo: a indústria da música pesada no Brasil é ineficiente e defasada. Absolutamente todos os membros da cadeia não funcionam como deveriam: mídia, gravadoras, produtoras, agências, bandas, etc. O resultado é um público desinformado e desinteressado por novidades, bandas medíocres, mídia inexpressiva e gravadoras inúteis. Steven Wilson parece um exemplo ruim para iniciar um texto sobre a decadência da indústria do heavy metal no Brasil. Afinal, ele não é exatamente um artista de metal e sua música não é lá tão pesada. Porém, ele é o exemplo perfeito de uma indústria internacional que evoluiu e não chegou aqui. Em 2002 foi lançado “In Absentia”, o primeiro trabalho do Porcupine Tree em uma gravadora major. Este é, sem dúvida, o disco mais importante da carreira do Steven Wilson. Foi aí que sua...

A maior vítima do câmbio

O impacto do câmbio no showbusiness é óbvio: cachês, vistos, voos… Diversos dos principais gastos de uma turnê são em moeda estrangeira (normalmente dólar ou euro). Todos os níveis de eventos são impactados, do show de estádio ao show mais underground imaginável. Porém, nem todos os tipos de evento têm os mesmos mecanismos para combater a crise cambial. Os shows de grande porte têm muitas formas de se manter competitivos. A flexibilidade vem, principalmente, de dois lados: – Existe uma gordura para queimar. Um artista que cobra cachê de 100 mil dólares pode fechar um show por 70 ou 80 mil. Pode se viajar com uma produção mais enxuta. Existe onde cortar custos. Cabe aos produtores não entrarem em leilões que inflam os cachês e custos de produção. O próprio real desvalorizado diminui o número de produtoras interessadas em arriscar. Isso naturalmente vai diminuir a demanda por shows internacionais, minimizando o impacto dos leilões. Nos níveis mais altos do showbusiness existem menos players, menos produtoras com cacife para trazer os artistas do primeiro escalão. – Nos eventos em grandes casas, arenas ou estádios existe uma maior tolerância com os altos preços dos ingressos. As produtoras conseguem diminuir o impacto do dólar mais caro subindo o preço dos ingressos. Eventos de pequeno porte não têm estes mecanismos. O underground funciona sem nenhuma gordura para queimar: os cachês são baixos, as produções não têm luxo, as equipes são mínimas (de vez em quando artistas viajam sem equipe nenhuma!). Quem mais sofre com o dólar a 3,50 é o underground. Imagine aquele show típico de Hangar 110, Clash Club ou Manifesto. Sabe aquele...

Meia entrada para curiosos

Em 1998, com meus 15 anos, vi um lambe-lambe anunciando o show do Savatage no velho Imperator, no Rio de Janeiro. Não conhecia muito da banda, mas sabia de sua importância pelas páginas da Brigade, revista que devorava do começo ao fim todos os meses. Os shows eram escassos nesta época. Havia um sentimento que aquilo era imperdível, raro.  Não importava se não era exatamente a sua banda favorita, um show de heavy metal era um evento que não se podia perder. Resolvi ir ao show. Com toda minha ignorância no assunto, comprei o “Gutter Ballet” para me familiarizar com o som da banda e ir mais preparado para o espetáculo da turnê do “Wake of Magellan”. Ao menos reconheci a faixa título, “Temptation Revelation/When the Crowds are Gone” e a outro “Silk and Steel”, tocada no PA após o bis. Este foi, até hoje, um dos melhores shows da minha vida. Eu estava lá por acaso, apenas por curiosidade. Quando o Savatage voltou ao Brasil 6 meses depois para se apresentar no Monsters of Rock, o “Gutter Ballet” já tinha ganhado a companhia de toda a discografia da banda na minha estante de CDs. E lá fui eu, de excursão, para São Paulo ver o Savatage mais uma vez. Alguns anos depois me mudei para a região de Fort Lauderdale, na Flórida. No começo dos anos 2000 o power metal (estilo que muito ouvia na época) não era tão popular nos EUA e as turnês do estilo eram praticamente inexistentes. Os ingressos para shows underground eram incrivelmente baratos e comecei a ir em tudo e qualquer show que...