Rio: aquele abraço

Nossa ausência do Rio de Janeiro foi percebida por aqueles que acompanham o underground local nos últimos anos. A mudança foi realmente drástica: de cidade em que mais produzimos shows, até mais que São Paulo, para um lugar que visitamos poucas vezes no ano. O motivo é simples: é um mau negócio realizar eventos de pequeno e médio porte no Rio.

Antes de entrarmos neste assunto, algumas ponderações são importantes. Estamos tratando especificamente do nosso ramo, ou seja, shows para até duas mil pessoas, normalmente dentro de algum sub-estilo do metal ou do progressivo – nossa análise exclui eventos em arenas ou estádios. O segundo ponto é que existe um preconceito, ou uma distorção da realidade, que resulta na ideia de que o Rio de Janeiro não tem público para rock comparado a outras praças como Porto Alegre ou Curitiba. É uma grande balela. Como segunda maior cidade do Brasil, o resultado mais comum das turnês é o Rio ter a segunda maior bilheteria. Nada mais natural. Vale ressaltar também que a crise econômica foi mais severa lá do que em outros estados, com atrasos de salários de servidores públicos, desemprego e clima generalizado de insegurança, o que certamente afeta a venda de ingressos.

No Rio não falta público, faltam casas. O contraditório é que temos ótimas opções na cidade, incluindo algumas das melhores para shows deste porte no país, como Circo Voador e Imperator. Porém, na maioria delas, a equação dificilmente favorece o produtor.

O Circo Voador é, provavelmente, a nossa casa favorita em todo o Brasil. Os shows lá tendem a ser memoráveis, com uma aura que só a lona consegue criar. Temos uma relação especial com o lugar e com as pessoas da administração, além da lembrança de noites históricas, como Bad Religion em 2014. Porém, o acordo financeiro não funciona na maioria das vezes e são poucas produtoras que seguem realizando shows internacionais lá com alguma consistência. Uma delas, com patrocínio de uma marca de cerveja.

Outro belo espaço, o Imperator, tem uma estrutura pouco comum para venues deste porte no Brasil. Lá o problema é outro: por ser uma casa administrada pela prefeitura, temos que seguir algumas regras impostas por ela. Além de dificuldade em conseguir datas, existe um limite de preço de ingresso que inviabiliza muitos shows.

O Teatro Rival talvez seja o caso mais extremo. A sua capacidade original (650 pessoas) era perfeita para a maioria dos shows de metal que acontecem no Rio de Janeiro. Porém, após a tragédia na Boate Kiss, em 2013, o corpo de bombeiros reduziu para 450 pessoas e, posteriormente, para 350. O Rival foi uma das casas que mais recebeu shows da Overload entre 2011 e 2014, mas ficou impossível manter a agenda com a capacidade atual.

Shows no Teatro Odisseia são geralmente viáveis e o acordo financeiro é justo pelo seu tamanho e estrutura. Porém, por ser uma casa underground, só é possível realizar shows de bandas até um certo nível de exigência técnica ou logística. Não adianta colocar um artista com produção mais sofisticada lá que não vai funcionar.

Não é de se espantar que não exista uma única produtora de shows de heavy metal que atuou na cidade por algum tempo prolongado. Desde Hard n’ Heavy e Headbanger no começo dos anos 2000, passando por Overload, Blog n’ Roll e a atual MGB, todo mundo perde o gás depois de sucessivos fracassos. Sobram para o Rio pequenas produções no Odisseia e shows de produtoras nacionais que precisam incluir a cidade na rota para compor uma turnê, muitos destes deficitários.