Overload Music Fest: erros e acertos

Já são quase dois anos sem post aqui no blog, um projeto que nunca decolou de verdade. Vamos tentar manter alguma regularidade a partir de agora, mas sem promessas.

O fim (ou pausa) do Overload Music Fest nos pareceu um assunto digno para a retomada das atividades por aqui. É o evento que gostaríamos que fosse o carro chefe do nosso calendário anual, mas que também nunca decolou. A bem-sucedida edição de 2016 nos encheu de energia, mas 2017 nos trouxe de volta à realidade. Sem vira-latismo, iremos discutir os erros e acertos desta breve história do OMF e por que é difícil realizar um evento do tipo no Brasil.

A primeira edição do festival teve God is an Astronaut, Alcest, Fates Warning, Swallow The Sun e Labirinto. Foi uma bela salada que não funcionou tão bem assim.

A ideia de 2014 era trazer bandas de vertentes diferentes, mas que tivessem ao menos um pouco de intersecção musical. Tendo bandas de diversos estilos, atrairíamos um público variado, fãs das vertentes que nos propusemos a trabalhar dentro de um universo relativamente restrito da música torta: post rock, progressivo (sempre evitando o lado mais punheteiro do estilo), doom, post metal, etc.

Na prática não funcionou. O Fates Warning ficou completamente isolado do resto do festival. No papel achávamos que o seu prog metal pouco indulgente, moderno e até bem atmosférico, como nos tempos de “A Pleasent Shade of Gray”, poderia funcionar junto com o resto do lineup. Porém, para os fãs das outras bandas, os vocais agudos de Ray Alder e a estética mais próxima do prog metal tradicional destoavam demais do que eles gostariam de ouvir. E para os fãs de Fates Warning a recíproca também era verdadeira: poucos estavam interessados nas outras atrações.

O God is an Astronaut também foi um caso peculiar de aceitação. Apesar da ótima resposta entre as pessoas presentes no festival, sentimos que os fãs do GIAA sem muita relação com o metal simplesmente não foram ao evento. Os fãs dos irlandeses ali presentes, em sua maioria, eram aqueles que tinham interesse também em Alcest ou Labirinto. Funcionou musicalmente, mas não agregou o público diferente que esperávamos levar.

Em termos de organização, a primeira edição certamente foi a mais caótica: atrasos acima do aceitável, horário tenebroso e show do headliner comprometido por problemas no PA. O feedback do público em relação a esta primeira edição foi uma das coisas mais legais que vivenciamos nestes mais de 10 anos de empresa: a galera entendeu que estávamos fazendo algo especial. Poderiam ter acabado com a gente em meio a tantas falhas, mas encontramos um nível de tolerância que produtores de shows, uma classe normalmente recebida com confiança comparável à de banqueiros, agiotas e políticos, normalmente não recebem. Nesta primeira edição aprendemos muito das limitações de um festival em um único e pequeno palco. Todas as demais edições fluíram muito bem, com atrasos mínimos e poucos problemas técnicos.

No primeiro Overload Music Fest nos deparamos com aquele que seria um problema constante em todas as edições do festival: o preço do ingresso. A crítica ao valor cobrado sempre desafiou o bom senso e foi um dos fatores mais frustrantes em todos estes anos. Em um mercado onde o ingresso para um show de uma única banda custa entre R$ 100,00 e R$ 150,00, um festival de R$ 170,00 deveria estar dentro das expectativas. Nunca conseguimos nos livrar deste estigma de cobrarmos caro, mesmo entregando um festival que obviamente tinha um custo alto de produção.

O problema do preço ia além: não bastava a percepção geral que o ingresso era caro, ele na verdade sempre foi muito mais barato do que deveria ser. O Overload Music Fest é o único evento em nosso calendário em que não respeitamos o valor que a nossa planilha indica que deveríamos cobrar. Pelo investimento feito, para termos um ponto de equilíbrio minimamente razoável, o ingresso deveria ser consideravelmente mais caro. Nunca tivemos coragem de cobrar o que seria condizente com o valor investido. Qualquer empresário que agisse exclusivamente com a razão nem teria tirado o festival do papel. Não fazia sentido investir tanto em um evento para se cobrar apenas 50 reais a mais do que num show do Animals as Leaders no Carioca Club ou Borknagar no Hangar 110.

Outro problemão diretamente influenciado pelo preço: as pessoas não querem pagar muito para ver apenas uma banda. Festivais maiores têm uma grande vantagem neste ponto: eles podem ser altamente ecléticos, já que entre 50 bandas as pessoas irão encontrar 10 que elas gostem. Em um festival com quatro ou cinco atrações por dia é muito mais complexo e tudo tem que ser muito mais cuidadoso, já que é essencial existir uma conexão direta entre as bandas para que o público queira pagar o valor cobrado.

O Overload Music Fest 2015 foi o único em dois dias, com oito bandas internacionais: Anathema, The Reign of Kindo, Riverside, Andy McKee, Paradise Lost, Novembers Doom, Mono e Antimatter. Tentamos aqui aplicar as lições do primeiro OMF. Em termos de organização, foi um sucesso. Financeiramente, foi o pior evento na história da produtora (não apenas a pior edição do festival).

Foram vários os erros aqui:

– Headliners que não funcionaram. O Anathema havia tocado no Brasil seis meses antes e o Paradise Lost visita o país com alguma frequência.

– Menos de 30% do público compareceu aos dois dias do festival (é comum os fãs comparecerem a todos os dias de eventos similares na Europa ou EUA).

– A ideia de diferenciar tanto os estilos (sábado mais progressivo e domingo mais doom) foi um tiro no pé.

– Sofremos com o mesmo problema do primeiro ano: os fãs de Mono, por exemplo, não tinham incentivos suficientes para comprar ingresso, já que as demais bandas não tinham tanto a ver com o post rock. Assim como Riverside e The Reign of Kindo não representam tanto para os fãs de Anathema da fase doom.

– A mistura de estilos, considerando os dois dias, dificultou um hype maior pelo festival como um todo. Parte da ideia de ter oito bandas era fazer do festival algo mais grandioso, que impressionasse também pela quantidade. Definitivamente não funcionou, com baixíssima venda do passe de dois dias. Confirmamos assim que é difícil ser um festival pequeno e muito eclético.

2016 foi o ano em que tudo deu certo. Katatonia, Alcest, Labirinto e Vincent Cavanagh levaram o maior público da história do festival. Ironicamente, a única edição lucrativa foi exatamente a que não teve nenhuma banda inédita.

O sucesso do OMF 2016 é fácil de ser explicado, mas difícil de ser reproduzido. O Katatonia é um headliner forte que havia visitado a América do Sul apenas uma vez, cinco anos antes. Alcest tocando um disco querido pelos fãs em show exclusivo na América do Sul também não é fácil de se conseguir.

Tudo que aprendemos nos fracassos dos anos anteriores foi corrigido: lineup coeso, mas diversificado o suficiente para ainda ser interessante ao público. Todos os artistas conversavam entre si, mesmo que todos fossem diferentes entre eles. Nenhuma banda destoava. O preço do ingresso valia o investimento dos fãs, pouca gente foi e gostou de apenas um show.

Definitivamente o ponto mais importante foi ter um headliner forte e um lineup que o complementava bem. O problema é encontrar este headliner todos os anos, ainda mais um que pouco visita o Brasil. Nossas opções diminuem ainda mais quando bandas relevantes lá fora são insignificantes por aqui, como o Cult of Luna ou o Amenra.

Em 2017 não conseguimos um headliner tão impactante como o Katatonia e tínhamos total noção disso. Tentamos compensar com um conjunto da obra mais forte, juntando Enslaved, Sólstafir, Les Discrets e John Haughm, todos inéditos por aqui. Talvez a força de uma escalação como esta, aliada ao histórico que havíamos construído em quatro anos de festival, resultaria em boa venda de ingressos. Não no nível da edição de 2016, mas ao menos o suficiente para não perder dinheiro, mantendo assim o OMF vivo. Estaríamos contentes com um empate e tentaríamos novamente a sorte em 2018.

O prejuízo, ainda que menor do que 2014 e 2015, foi significativo. O evento foi tão legal que cogitamos seguir em frente mesmo assim. Um membro do Enslaved considerou um dos melhores shows da carreira deles – são mais de 20 anos de banda. Fursy, do Les Discrets, chamou o OMF de um míni-Roadburn. John Haughm estava empolgadíssimo, conversamos na possiblidade do retorno com o Pillorian e ele sugeriu várias outras bandas. Com toda aquela alegria pós-festival, na adrenalina e emoção de ter feito algo tão gratificante… Impossível não se deixar levar pela paixão e tentar seguir em frente. Resolvemos então esperar alguns meses para tomar uma decisão de cabeça fria.

Passada a euforia, foi difícil ignorar o prejuízo. A dificuldade de conseguir um headliner ainda existia. Não podemos nos dar o luxo de colocar o Dimmu Borgir, como fez o Psycho Las Vegas. Neste caso, o headliner serve para dar peso ao cartaz, já que são dezenas de bandas que formam a identidade real ao festival. O nosso headliner é 20 ou 25% do lineup, ele significa algo de verdade. Não podemos colocar Dimmu com Caspian e Chelsea Wolfe, por exemplo.

Pensamos em várias soluções, mas todas se desvirtuavam da proposta do evento. Também não queríamos virar um festival mequetrefe, daqueles que pegam uma ou duas bandas em turnê pelo continente, colocam três atrações de abertura e se autointitulam festival. Jamais insultaríamos a inteligência do público.

Optamos pela pausa antes de tomar decisões que manchariam a história que construímos nestes quatro anos. Não desistimos, mas temos que criar soluções para os problemas de preço, logística e falta de headliners. Esperamos que seja apenas um “até breve”. Caso o fim seja definitivo, guardaremos com carinho as memórias deste nosso pequeno grande festival.

  • Jean Alves

    Queria muito ter ido nas duas ultimas edições, principalmente na de 2016 mas infelizmente não pude ir, sair do Nordeste pra São Paulo é um pouco complicado ($$$), mas planejava ir no deste ano, infelizmente fiquei sabendo que o mesmo vai chegar ao fim (ou pausa), torço para que o evento volte um dia com força total para atender o público do Festival, desejo sorte a todos os envolvidos e espero um dia ver um OMF bem lotado e com atrações excelentes.

    • Damodara Rosalino

      Idem

  • Adriano Souza

    Eu acho que a idéia de ser um “Mini-Roadburn” já foi algo ousado até demais para um país como o Brasil. Ter conseguido realizar 4 festivais nesse formato já foi uma vitória tremenda. Podem ter certeza que o Overload ficou marcado no coração de várias pessas.

  • Adriano Videira

    Já “malhei” algumas vezes vocês (via Facebook), principalmente quando deixaram de trabalhar com o RJ, mas reconheço que o que vocês tem feito (ou tentado fazer) até aqui demonstra coragem, numa cena bunda-mole como a nossa.

    Fiquei curioso pra saber quais seriam as tais soluções “que desvirtuariam o evento”, até porque, vendo de fora e apenas com achismo de fã frequentador de show, acho bem difícil equalizar a questão preço/headliner. E outra: quem sabe, tais soluções abortadas não batam com o que o público esteja querendo? São casos a se pensar.

    BTW, fica a torcida pela volta.

  • Luan Lopes Mendes

    :(

  • Fabio Juliano

    Sou de Porto Alegre e fui na edição de 2017. Bandas inéditas por aqui! Solstafir, Les Discrets, Enslaved e JH do Agalloch. Que baita time para um festival. Sob o ponto de vista de logística, ir a shows desse quilate em um local pequeno e de fácil acesso foi um luxo. Mas confesso que fiquei com vergonha da quantidade de gente que compareceu. Só o Enslaved deveria ter levado o que tinha ali de público. Estou bem chateado que não teremos OMF este ano, mas o texto explicativo de vocês é muito claro: não tem como manter com a cena atual. O Carioca Club enche com festas comuns e não com bandas maravilhosas como as de 2017. Uma pena. Na torcida pela volta deste maravilhoso festival.

  • Maurizio

    Tive uma percepção um pouco diferente do motivo do sucesso do Overload 2016 em comparação com o de 2017 (os que fui). Acho que 2016 teve a grande vantagem de ter dois shows completos, com dois pocket shows acompanhando. Enslaved fez um grande show, mas foi uma judiação ver o Solstafir com um setlist menor, uma banda que certamente arrastaria um público maior. Já deixei muitas vezes de ver uma banda pq ela era apenas banda de abertura num show.
    Talvez, numa nova edição (que eu torço ardentemente para que aconteça) possa ser novamente feito esse equilíbrio entre duas atrações fortes e a ideia de um headliner seja repensada. Até uma delas estando em turnê pelo Brasil de qualquer modo. Não é preciso que se chegue ao ponto do show do Radiohead (festival, ok, né?), mas shows dos gêneros que o OMF abraça dificilmente dão lugar a essa embromação.
    Quanto ao preço, é inacreditável que haja reclamações. O OMF tem disparado o melhor custo-benefício de qualquer show no país.
    O OMF me deu, nessas duas edições em que estive, shows e noites que absolutamente marcaram minha vida, e se eu tinha um plano pra 2018 era ir no festival. Seria inclusive uma comemoração de aniversário de um namoro que começou num OMF.
    Sabemos que é duro fazer isso no Brasil hoje, não só em termos econômicos mas pq falta tb a muitos brasileiros essa curiosidade de encarar o novo, andamos sempre tomando lados e rejeitando o que é diferente, então muitos dos quem querem ir no Enslaved pouco valorizam a oportunidade de ver outras bandas num estilo um pouco diferente (esse é só um exemplo, vale pra absolutamente qualquer banda ou músico) e querem pagar preço de show único, pq o resto tem que vir de brinde já que vai ser apenas tolerado.
    É um desafio e tanto um festival desses no Brasil, e agradeço demais a coragem de vcs que nos rendeu noites incríveis. Que o OMF volte logo, e se essas reflexões ajudarem, ficarei imensamente feliz. Parabéns e abraços.

  • Caio Livio L. Augusto

    Como vocês bem observaram, o público do post-rock, no qual me incluo, não se interessa tanto pelas outras atrações. Fui na primeira edição por causa do GIAA. Não fui na edição que teve o Mono porque imaginei que o set list deles seria reduzido, então o meu incentivo para ir acabou ficando pequeno. De qualquer forma torço pela volta do Overload, ainda que em outro formato se for o caso, assim como gostaria também que vocês produzissem mais shows de post-rock ou mesmo um festival mais voltado para o gênero, quem sabe. Muito obrigado a todos da Overload pela coragem e empenho em produzir eventos de qualidade.

  • Felipe Hänsell

    Torço muito pelo retorno de vocês. Confesso que não fui a nenhum dos shows justamente por conta da salada nos estilos. Uma das meus maiores remorsos em relação a shows é não ter visto o Mono, mas paciência. Torço muito por vocês.

  • Laura Sirianni

    A edição de 2016 foi a primeira vez que eu fui em um show na vida, foi incrivel, vocês estão de parabéns!
    Ridículo as pessoas reclamarem do valor dos ingressos, eu paguei cerca de R$220 no camarote em 2016, em que tipo de show você paga esse valor por esse tipo de ingresso??
    Eu estava louca para ir na edição de 2017, mas não pude por problemas de natureza maior. Eu sempre namorava o anúncio do evento e virei fã de Sólstafir e Les Discrets por causa de vocês.
    Uma pena que não teremos OMF em 2018, mas espero com todas as forças que vocês estejam de volta em 2019!
    Vocês são fodas! o/