Existe uma indústria de heavy metal no Brasil?

Via Marquês, 21 de abril de 2012. Steven Wilson pergunta ao público, de forma desastrada, por que havia tão pouca gente em seu show naquela noite. A questão, injustamente interpretada como arrogante, era pertinente. Por que o show em São Paulo foi, de longe, o mais vazio em toda a turnê sul-americana? Importante lembrar: a tour passou até por Caracas, que não é exatamente a capital mundial do rock.

Não era arrogância, era uma curiosidade legítima. Vejam bem, não é um artista fracassado que não entende por que as pessoas não vão aos seus shows. A pergunta era especificamente para aquela noite. Como explicar tamanha disparidade? Como a gigantesca São Paulo leva menos de 20% do público presente em uma apresentação em Santiago, Cidade do México, Nova Iorque ou Londres?

A resposta é simples e complexa ao mesmo tempo: a indústria da música pesada no Brasil é ineficiente e defasada. Absolutamente todos os membros da cadeia não funcionam como deveriam: mídia, gravadoras, produtoras, agências, bandas, etc. O resultado é um público desinformado e desinteressado por novidades, bandas medíocres, mídia inexpressiva e gravadoras inúteis.

Steven Wilson parece um exemplo ruim para iniciar um texto sobre a decadência da indústria do heavy metal no Brasil. Afinal, ele não é exatamente um artista de metal e sua música não é lá tão pesada. Porém, ele é o exemplo perfeito de uma indústria internacional que evoluiu e não chegou aqui.

Em 2002 foi lançado “In Absentia”, o primeiro trabalho do Porcupine Tree em uma gravadora major. Este é, sem dúvida, o disco mais importante da carreira do Steven Wilson. Foi aí que sua música escapou do submundo do underground progressivo e atingiu novos públicos. Além de atingir o público mais mainstream do prog, foi no metal que Steven Wilson encontrou novos ouvintes. A indústria rapidamente entendeu o recado. O progressivo não era mais música para nossos pais ou avós. Existia uma clara demanda por um som pesado, interessante, complexo e novo.

Logo surgiram gravadoras, revistas especializadas, festivais, novas bandas. De repente Opeth, Porcupine Tree, Anathema e Devin Townsend estavam fazendo um sucesso que era inimaginável poucos anos antes. Sucesso real, com públicos consideráveis e dinheiro suficiente para que os músicos vivessem confortavelmente de sua arte (o que por si só já é impressionante).

Mas nada chegou aqui no Brasil com a mesma proporção. Nada. O que justifica um público tão desinteressado por novidades? Não estamos falando apenas deste progressivo moderno: o power metal (estilo popular no Brasil) do Sabaton arrasta multidões em festivais europeus e aqui não enche o Carioca Club. Volbeat e Five Finger Death Punch são headliners de grandes festivais e nem tocam no Brasil. Deathheaven chama atenção até da mídia mainstream gringa e por aqui mal é mencionado na imprensa especializada. O nosso Overload Music Fest tem o mesmo impacto midiático que uma turnê qualquer do UDO. Nossas bandas de metal que querem fazer um som “moderno” soam como o Disturbed em 2001.

Fãs e bandas de metal frequentemente reclamam de falta de espaço do estilo na grande mídia, sem perceber que, na verdade, nos falta uma mídia especializada mais relevante. Lógico que uma presença na imprensa mainstream não é desprezível, mas não é essencial. No Brasil é até mais fácil emplacar uma notinha de assessor de imprensa sobre shows de artistas relativamente irrelevantes na Folha de São Paulo ou O Globo. Ou você acha que o New York Times está noticiando um show de death metal no Bronx? O metal é auto sustentável, por isso uma mídia especializada relevante é muito mais importante que pequenos espaços em veículos mainstream. O problema é que não temos uma mídia formadora de opinião desde os tempos de Rock Brigade e Vitão Bonesso.

Sim, a Rock Brigade foi uma legítima formadora de opinião até o começo dos anos 2000. Goste você ou não do metal melódico, o que a revista fez pelo estilo no país foi inestimável. A Brigade era tão relevante que o Brasil virou o principal mercado de heavy metal melódico no mundo. As bandas tinham aqui públicos que não tinham em nenhum outro lugar. De forma mais regional, o Vitão fazia o mesmo no rádio, com um programa relevante e muito ouvido em São Paulo.

Ainda temos a Roadie Crew, muito boa no que se propõe a fazer. Porém, ela se posiciona como um veículo de classic rock, compreensivelmente não se arriscando tanto nos estilos mais modernos. Não há julgamento ou crítica em relação a isso: existe espaço para revistas como ela no mercado. O problema é não existir também uma revista que aposte em novidades e que fale diretamento com o público mais atual.

Mesmo que o futuro não esteja no meio impresso, não existe um único site realmente relevante e formador de opinião. O maior do Brasil, Whiplash!, em seu formato colaborativo, é eficiente para divulgação de notícias. Porém, seu conteúdo próprio é muito irregular e muitas vezes abaixo do aceitável para um veículo de seu porte. Existem também dezenas de sites e portais voltados ao heavy metal, quase todos com conteúdo pobre, textos sem muita inspiração e irrelevantes. Existe uma falta de coragem generalizada para se criticar e criar conteúdo instigante. Os poucos bons escritores que temos não conseguem conquistar a audiência que merecem e se tornam irrelevantes por falta de público interessado.

O desinteresse por novidades do nosso público obviamente reflete na qualidade das nossas bandas. Nossos músicos de heavy metal são técnicos, bem preparados e competentes. Diria até que são superiores, tecnicamente, que boa parte dos músicos estrangeiros. Mas também são compositores pouco inspirados. Produzimos muitos discos razoáveis ou até bons, mas quase nada é realmente genial, quase nada nos emociona ou impressiona como nossos discos favoritos de bandas internacionais. Temos que parar de nivelar nosso metal por baixo com a desculpa de estarmos “apoiando a cena nacional”. E necessário julgar o produto local na mesma escala que julgamos o internacional. Não é coincidência que as três bandas brasileiras que conseguiram sucesso internacional de verdade (Sepultura, Angra e Krisiun) sejam realmente excepcionais e inovadoras dentro de seus estilos. Lógico que temos outras bandas excelentes, mas elas se perdem no meio da mediocridade.

As nossas gravadoras também têm pouca importância. A maioria delas são meras prensadoras de CDs, já que elas também não conseguem fugir deste mercado medíocre. A Overload foi uma gravadora lá no início, em 2005. Fomos terríveis. Não conseguíamos fazer nada de diferente pelos nossos artistas. Nossa divulgação era aquele básico que todo mundo faz: anúncio na Roadie Crew, entrevistas para alguns sites, etc. Todos os discos recebiam ali suas notas 7, 8 ou 9 pela mídia especializada e ficava nisso. Nada ia para a frente.

As gravadoras são completamente sem personalidade. As maiores são licenciadoras das gravadoras estrangeiras, lançando no mercado nacional o que tem de mais relevante (comercialmente) no metal mundial. Nenhuma delas consegue fazer um trabalho mais relevante do que a outra, já que todas usam as mesmas distribuidoras e divulgam nos mesmos meios. Com um show business tão capenga, não existe muito para onde fugir. As gravadoras até tentaram coisas diferentes no auge do metal melódico, trazendo as bandas para festas de lançamento ou coletiva de imprensa. Não durou muito, já que todo o mercado fonográfico entrou em colapso.

O mais triste é não existirem gravadoras relevantes lançando bandas nacionais. Selos com curadoria, especializados em algum sub gênero, com filtro de qualidade… Seria muito interessante alguém aparecer no mercado lançando só bandas realmente boas, explorando todas as novas plataformas (streaming, download pago, diferentes formatos físicos).

O mercado de shows também deixa a desejar. As produtoras normalmente agem em papéis duplos: são produtoras e agências ao mesmo tempo. E, ao exercer ambas as funções, existe um claro conflito de interesse. Se uma produtora está trazendo banda X para tocar em São Paulo, pode ser que ela não tenha incentivos para agendar mais shows pelo país, já que um show único em São Paulo pode ser mais lucrativo.

No formato do show business na Europa ou América do Norte, os agentes são responsáveis pelo agendamento de todas as datas de uma turnê, e não um produtor local de uma cidade, como muitas vezes acontece no Brasil. Funciona mais ou menos assim: o agente consegue ofertas de vinte produtores diferentes em diversas cidades dos Estados Unidos e do Canadá. A banda, após pagar a comissão do empresário e do agente, recebe todo o dinheiro dos produtores e com ele financia os gastos de turnê: voos, vistos, equipe, vans, ônibus, etc. Desta forma, a banda sempre tem o incentivo para agendar mais datas, já que precisa do dinheiro para pagar os custos fixos da turnê.

Aqui no Brasil, na maioria dos casos, o interesse de agendar mais shows está nas mãos do produtor, que acaba exercendo um papel de agente sem nem sempre ter os interesses da banda como prioridade.

Além de todos os problemas específicos do show business de heavy metal, os problemas estruturais também atrapalham as tours: estradas ruins, equipamentos caros e difíceis de encontrar em mercados secundários, poucas casas de show, etc.

Com um público pouco interessado em novidades, o produtor não tem incentivos para investir em artistas novos, entrando no ciclo vicioso das mesmas bandas sempre voltando ao nosso país. Público preguiçoso, mídia especializada desatualizada, gravadoras irrelevantes, bandas datadas, produtoras cautelosas e com conflito de interesses… Por onde começar? Como nos renovamos?

Não sabemos a resposta, mas estaremos no dia 20 de março vendo o Steven Wilson no Brasil mais uma vez com os mesmos 599 amigos de sempre.