A maior vítima do câmbio

O impacto do câmbio no showbusiness é óbvio: cachês, vistos, voos… Diversos dos principais gastos de uma turnê são em moeda estrangeira (normalmente dólar ou euro). Todos os níveis de eventos são impactados, do show de estádio ao show mais underground imaginável. Porém, nem todos os tipos de evento têm os mesmos mecanismos para combater a crise cambial.

Os shows de grande porte têm muitas formas de se manter competitivos. A flexibilidade vem, principalmente, de dois lados:

– Existe uma gordura para queimar. Um artista que cobra cachê de 100 mil dólares pode fechar um show por 70 ou 80 mil. Pode se viajar com uma produção mais enxuta. Existe onde cortar custos. Cabe aos produtores não entrarem em leilões que inflam os cachês e custos de produção. O próprio real desvalorizado diminui o número de produtoras interessadas em arriscar. Isso naturalmente vai diminuir a demanda por shows internacionais, minimizando o impacto dos leilões. Nos níveis mais altos do showbusiness existem menos players, menos produtoras com cacife para trazer os artistas do primeiro escalão.

– Nos eventos em grandes casas, arenas ou estádios existe uma maior tolerância com os altos preços dos ingressos. As produtoras conseguem diminuir o impacto do dólar mais caro subindo o preço dos ingressos.

Eventos de pequeno porte não têm estes mecanismos. O underground funciona sem nenhuma gordura para queimar: os cachês são baixos, as produções não têm luxo, as equipes são mínimas (de vez em quando artistas viajam sem equipe nenhuma!). Quem mais sofre com o dólar a 3,50 é o underground.

Imagine aquele show típico de Hangar 110, Clash Club ou Manifesto. Sabe aquele artista que tem um público fiel de 300, 400 pagantes? Este evento se tornou inviável. O underground não vai pagar 130 reais no Hangar 110. Sim, provavelmente 200-300 pessoas ainda pagariam 130 reais para assistir o Obituary, mas não as 500 que são necessárias para fazer do show algo viável.

Imagine um artista que toque em São Paulo por 6000 dólares, que na cotação atual custaria ao produtor cerca de 22500 reais. Neste evento fictício cobraríamos 90 reais, um preço comum para shows deste porte.

Com 400 pagantes, teríamos uma bilheteria bruta de 36000 reais. Descontando os 22500 de cachê, sobrariam 13500 para bancar os vistos de trabalho, aluguel da casa, hotel, alimentação, transporte, equipe, equipamentos, divulgação, ECAD, impostos e o lucro do produtor. Acredite, com 13500 não é possível bancar todas despesas. Só o ECAD já leva de 5 a 10% da bilheteria.

Não tem de onde cortar custos, e 6000 dólares em São Paulo é muito pouco dinheiro para uma banda média. O agente vai tirar ao menos 10% de comissão, a banda tem que pagar sua equipe e os voos. Mesmo em uma turnê extensa pela América do Sul, o rateio dos voos irá custa ao menos alguns milhares de dólares por show. Ou seja, destes 6000 a banda não vai ficar com mais de 2000, que ainda tem que ser dividido entre quatro, cinco ou seis caras (oito, se for uma destas bandas novas de folk metal). Mais uma vez, acredite: aquela lenda do metal que você tanto admira está tirando 300, 400 dólares para tocar ali para você. O motorista da van leva mais dinheiro para casa que o vocalista.

A solução seria subir o preço dos ingressos. Mas também já estamos trabalhando com extremos. O público irá rejeitar um evento de mais de 100 reais no Hangar 110. Não tem para onde fugir.

É provável que o impacto seja imediato. Os shows pequenos de heavy metal e punk irão diminuir consideravelmente, incluindo as bandas clássicas que batem ponto por aqui. Estilos mais extremos são ainda mais sensíveis a mudanças no preço dos ingressos. Death e black metal vão sumir da agenda cultural brasileira. Simplesmente não é viável.

Um nível acima, os shows do Carioca Club ou Via Marquês contam com um pouco mais de recursos para combater a crise, principalmente o preço dos ingressos. É possível cobrar 120 ou 130 reais nessas casas e ainda ter um público satisfatório. A situação também não é fácil, já que diversos artistas levaram menos público em 2015 do que em turnês anteriores. Em shows deste porte também existem mais produtores interessados, o que complica negociações por cachês mais baixos. O impacto não será tão grande quanto nos shows pequenos, mas acredito em uma diminuição também.

A situação fora de São Paulo será ainda mais grave, principalmente no Rio de Janeiro. A cidade sempre teve custos de produção muito altos e uma margem de lucro pequena. A cidade não tem capacidade para aguentar o tranco de um câmbio pouco favorável. O número de shows internacionais no Teatro Rival Petrobras, Circo Voador e Fundição Progresso irá diminuir consideravelmente. O Teatro Odisseia será o grande vencedor neste cenário, já que é a casa mais acessível da cidade. Porém, não são todos os artistas que aceitam as condições limitadas da casa. Cidades como Belo Horizonte e Curitiba, apesar de públicos irregulares, podem se beneficiar por serem cidades mais baratas.

Poucas bandas querem vir ao Brasil para fazer um único show em São Paulo. Por isso outras praças ainda irão continuar no roteiro. O produtor tem que incluir Rio ou Porto Alegre na turnê para conseguir fazer São Paulo. E muitas vezes estes shows são deficitários, mas necessários viabilizar o show lucrativo em Sampa.